Três meninas. Três histórias diferentes que se encontram. Três linhas distintas de pensamento, que se unem formando um maravilhoso mosaico de histórias, ideias e experiências. Encontram-se nas afinidades e completam-se nas diferenças, enlaçando-se nas alegrias e tropeços da vida. Escrevem aqui para celebrar, compartilhar e aprender. Para refletir sobre as experiências do passado, as inquietudes do presente e as incertezas do futuro. Nessa sucessão de encontros e desencontros, buscam entender melhor o mundo. Tudo isso regado por um pouco de geografia, política, arte e muito ziriguidum!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor de arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido (mal vivido ou talvez sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser, novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?). Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar de arrependido pelas besteiras consumadas nem parvamente acreditar que por decreto da esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver. Para ganhar um ano-novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.

Conheça o autor e sua obra visitando "Biografias".

FELIZ 2011 PARA TODOS!!!

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O legado dos megaeventos esportivos para a cidade Maravilhosa

"O Rio de Janeiro va ter muito a ganhar com os jogos olímpicos e a Capa do Mundo"... é o que ouvimos, religiosamente, tal como um mantra, da parte de todos os que querem nos convencer da idoneidade e boas intenções dos processos de licitação, execução de obras, investimentosem serviços etc. ... Dá uma olhadinha aí em baixo, se possível acesse o site (o link está no título dessa postagem) e contribua com apoio às comunidades despejadas e novas denúncias! Desejo um 2011 mais HUMANO para todos!! Beijos, Tati

LEGADO DOS JOGOS LEGACY OF THE GAMES LEGADO DE LOS JUEGOS 2092 pessoas despejadas*/people evicted*/personas desalojadas* 523 famílias despejadas/families evicted/familias desalojadas

* Estimativa de quatro pessoas por família *Estimate of four persons per family * Estimación de cuatro personas por familia

#

COMUNIDADE (COMMUNITY)

OBRA (CONSTRUCTION)

LOCAL (DISTRICT)

NOTÍCIA (NEWS)

MAPA (MAP)

1

Vila Recreio II

BTR - Transoeste

Recreio dos Bandeirantes

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2

Vila Harmonia

BTR - Transoeste

Recreio dos Bandeirantes

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3

Restinga

BTR - Transoeste

Recreio dos Bandeirantes

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4

Amoedo

BTR - Transoeste

Recreio dos Bandeirantes

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5

Av. das Américas 19.070

BTR - Transoeste

Recreio dos Bandeirantes

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6

Magarça - Km 35

BTR - Transoeste

Pedra de Guaratiba

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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

FELIZ NATAL!!!

Cique na imagem que ela se move... Fofa! Amigos e amigas que frequentam esse humilde blog, Desejamos que a agitação dos últimos dias do ano não embace a capacidade de avaliar o que houve de positivo em 2010 e que vocês possam manter firme a máxima pedagógica de que também se aprende com os erros, que vocês possam sorrir e gargalhar sozinhos e entre amigos, que possam emocionar-se e arrepiar-se com filmes, livros, bebês, demonstrações de afeto e até com o trabalho, que sejam capazes de agradecer ao Criador (qualquer um em que vocês acreditem: Deus, Gaia, Alá, Big bang, ...) por estarem aqui e cruzarem os caminhos uns dos outros. (recebi de uma amiga e gostei, adaptei e resolvi compartilhar!)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

CENTENÁRIO DE NOEL


Hoje encontrei-me rapidamente com a Rê, que comentou sobre um livro lindo da biografia de Noel Rosa que ela presenteou-me tempos atrás, que por sinal é uma relíquia nos dias atuais, e lembrei-me após esse nosso papo que o ilustríssimo sambista não havia recebido as devidas homenagens das meninas deste blog.

Para acertar tamanha negligência, segue um breve relato sobre o nosso
saudoso poeta da Vila!
Nascido em Vila Isabel, zona norte do Rio de Janeiro, o sambista Noel Rosa completaria cem anos no dia 11 de dezembro deste ano. Desde o início do ano, o compositor e cantor recebe homenagens da cidade sobre a qual tanto gostava de transformar em música e as meninas também não poderiam deixar de prestar uma singela homenagem ao compositor. Para o músico Martinho da Vila, que escreveu o samba-enredo “Noel a presença do poeta da Vila”, o legado de Noel - além de suas obras - foi ter ajudado o samba a se tornar símbolo do Rio. –É uma figura imortal, parece que ainda está aqui. Suas composições e melodias são bastante atuais. Noel Rosa inspira poesia no samba.
No entanto, a cidade descrita por Noel é diferente daquela imaginada pela maioria das pessoas quando se menciona o Rio de Janeiro. De acordo com o músico Carlos Didier, que escreveu Noel Rosa, uma biografia , junto com João Máximo, o sambista se concentrava no homem comum, do Centro para a zona norte, em vez de descrever o cenário e o dia a dia das pessoas de Copacabana e Leblon.
- Em vez de falar em tese, por exemplo, de amor, ele ilustrava com a cidade, uma cena em um bar. Era um grande cronista. O Noel viabiliza a crônica em samba. Antes dele, a cidade aparecia apenas em cenas pequenas. Ele era simpático a cidade. Mas ao focar em seu bairro, ele não perde a capacidade de ser universal.
Homenagem a Noel Rosa-Vila Isabel
Para o biógrafo, o sambista pegou o espírito da cidade, que seria um humor, que não é uma gargalhada, mas um sorriso. Uma graça com uma ponta de tristeza, uma sátira com uma ponta de filosofia. O “poeta da Vila” viveu na época da formação do samba genuinamente carioca, interferindo no modelo criado no início dos anos 20. Isso ao lado de Ismael Silva, Cartola, Paulo da Portela, que são considerados os sambistas de raiz.
- A chegada de Noel ajuda a legitimar o samba, porque ele traz uma cultura literária portuguesa e brasileira. A música “Triste cuíca”, por exemplo, é um soneto – tipo de poema- e muitas pessoas nem sabem.
Noel Rosa era um boêmio, que gostava de trocar experiências com outros artistas. Teve aproximadamente 60 parceiros, segundo Didier. O sambista veio de uma família musical.
Noel Poeta da Vila - O Filme
Seu primeiro instrumento foi o bandolim da mãe, em seguida, o violão do pai. Didier conta que, segundo relatos do próprio Noel, ao conseguir a atenção das moças com a música, o sambista aproveitou o talento que tinha.
O “Poeta da Vila” viveu apenas 26 anos, vítima de tuberculose, mas compôs alguns clássicos da música popular brasileira. Destacam-se Com que Roupa?, Fita Amarela, Feitiço da Vila, Onde está a Honestidade? e Filosofia.
Concluirei essa postagem com o "último desejo" do nosso eterno Noel!
video

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Polícia desocupa prédio no Centro com gás e tiros de borracha

É para ISSO que serve a POLÍCIA e a POLÍTICA no Brasil... Tortura, violência, repressão, agressão, injustiça, calúnia, difamação, corrupção, autoritarismo, arrogância, crueldade, selvageria, ..., poderia ficar qualificando até amanhã. Mas prefiro publicar a reportagem que saiu no Globo (que para os seus padrões de criticidade "a la classe média tijucana" foi bem ponderada e, na sequência, a carta enviada por um companheiro que foi preso na desocupação. MAIS UM DESPEJO, MAIS UMA OCUPAÇÃO!
RIO - Policias Militares do Batalhão de Choque lançaram gás, spray de pimenta e tiros de borracha para dispersar estudantes, sindicalistas e manifestantes que protestavam em frente a um prédio do INSS, ocupado por sem-teto, na Avenida Mem de Sá, nº 234, no Centro.
O prédio havia sido ocupado por 23 famílias no fim da tarde deste domingo. Alguns manifestantes foram presos e um chegou a ser levado para o hospital com sangramento no pescoço, após ser atingido por um tiro de borracha.
Antes da chegada do Batalhão de Choque, o clima era calmo e os manifestantes estavam em clima pacífico. Há grande confusão no local e aos pouco as famílias que ocupavam o prédio estão sendo retiradas pela polícia. No tumulto muitas crianças, idosos e até uma grávida sofreram com a confusão, muita tosse e irritação nos olhos.
Segue a carta de Pedro:
Gente,
encaminho este email e aproveito para fazer um breve relato sobre o que aconteceu comigo e mais seis companheir@s que foram presos e alvos de tortura ontem tanto por parte da Polícia Federal como da Polícia Militar. Nos reuniremos ainda para escrever uma carta denunciando tudo o que aconteceu, todas as arbitrariedades e desrespeitos aos direitos humanos cometidos pela Polícia à mando do INSS, um dos maiores latifundiários urbanos e que apenas em 2010 promoveu quatro despejos de ocupações sem-teto no centro do Rio, jogando centenas de famílias na rua ao mesmo tempo em que seus imóveis continuam abandonados e servindo à especulação imobiliária, mas, por hora, escrevo este email apressado pra divulgar em parte o que vivemos ontem.

Primeiro, temos que esclarecer a mentira, levada a acusação jurídica, de que o movimento, através de seu "líder" - que a polícia identifica como eu - sequestrei e agredi o segurança com tapas e abuso de força física. Isso é um total absurdo! Nem eu e nem nenhum dos companheiros, dos ocupantes, agredimos o segurança ou o prendemos. Nós entramos no prédio quando a porta estava aberta, logo após a troca dos vigilantes, e num momento em que este conversava com uma pessoa na calçada. Nós apenas conversamos com ele e explicamos a ação, dizendo que o prédio estava agora ocupado por famílias que se organizam no movimento sem-teto e que nós estávamos pleiteando, na justiça, a propriedade do imóvel. Nem nós, nem mesmo o segurança - que era apenas um contra trinta famílias, por isso não reagiu - fomos agressivos e a resolução deste conflito foi rápida e pacífica. Inclusive, nós devolvemos todos os pertences dele, mostrando que não era nossa intenção roubá-lo, nem prendê-lo no prédio. Obviamente, se o prédio estava ocupado não havia sentido deixá-lo lá dentro, inclusive, pois, nesse caso os seguranças costumam alegar "cárcere privado" como forma de derrotar a ação do movimento. Sendo assim, fica clara a tentativa de criminalizar o movimento social, algo que não é brincadeirinha ou jargão de militante, mas que acontece diariamente, acarretando em atos extremamente violentos e inclusive em mortes. Tentativa, é preciso ressaltar, que constrói uma imagem de organização do movimento social totalmente equivocada e que reflete o próprio Estado. Eu não sou líder de movimento algum, como consta na acusação que está sendo encaminhada ao Juiz, nem existe líder que coloca pessoas num prédio ou que sejam os “incitadores da violência”, como também consta na acusação. Os apoios da ocupação nem se quer tem direito a voto nas assembléias de moradores, incentivando e acreditando que o movimento sem-teto tem que ser guiado pelos próprios sem-teto, cabendo a nós, como fizemos ontem, apenas o papel de apoio. Nossa luta é contra o Estado, e pra isso não recorremos da estrutura organizativa, das hierarquias, nem da tortura que este promove. Lutamos pela igualdade e pela democracia direta, não nos espantando, portanto, com a não “compreensão” por parte do Estado de nosso modo de lutar.

Estado, que desde o princípio mostrou-se violento.

Entrando dentro do prédio, ainda que ocupado por crianças, idosos e por uma mulher grávida, tivemos a entrada de alimentos e objetos proibidos, tendo que recorrer a baldes que eram lançados pela janela. Pela polícia, morríamos de fome lá dentro, assim seria melhor. Aliás, não, pois como eles mesmos gostaram de frisar pra mim enquanto eu era levado na viatura e quando invadem as favelas ou matam a população de rua: “nós estamos na polícia porque gostamos de matar”. Então, talvez a morte por fome não saciasse a necessidade de extermínio que eles carregam e que parecia se manifestar muito bem quando agrediram as pessoas que estavam prestando, pacificamente, solidariedade à ocupação e quando lançaram bombas e spray de pimenta para dentro do prédio.

A Polícia, mais uma vez, implementou o terror. Quando arrombou a porta do prédio, sem nenhum tipo de ordem judicial, apenas anunciou que “se não saíssemos agora eles iam quebrar geral, a porra toda”. Saímos como lixo, tratados como bandidos da pior espécie. Tratamento que só se acentuou quando sete pessoas – que eram apoio da ocupação - foram espancadas, presas e jogadas dentro na traseira de uma viatura. Um espaço sem nenhuma ventilação, escuro, apertado, que precisa ser abolido IMEDIATAMENTE e que lembra os porões terríveis dos navios negreiros, escravidão que o Brasil cultiva e exalta. Antes de ser tacado no “camburão”, com apenas uma notificação de que eu estava sendo preso sob a acusação de seqüestro, eu ainda falei que tinha problemas respiratórios e que sofro de claustrofobia, mas parece que isso só os animou. Com o corpo machucado, ardendo com o spray de pimenta, sufocados, ficamos espremidos, praticamente enforcados pela polícia. Sessões de tortura que só prosseguiram quando fomos levados para a Delegacia da Polícia Federal (DPF) e tacados como bichos em duas salas. Sem nenhuma explicação ou qualquer diálogo, obrigaram eu e outro companheiro a tirar toda a roupa, alegando que podíamos ter “uma arma por baixo da cueca”. Piada, se não fosse o contínuo de uma agressão que ainda estava começando, pois a partir daí, perto das 13 horas, ficaríamos SEIS horas largados na cela sem direito a ir ao banheiro, usar celulares, comer, ou receber qualquer informação sobre o nosso caso e destino. Urinávamos em garrafas de dois litros, ao mesmo tempo em que gritávamos de dentro da cela pedindo que alguém abrisse a cadeia e falasse algo, o que só aconteceu com a chegada da nossa advogada e dos advogados da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro.

No corredor sujo e fechado, com apenas um ventilador para as duas celas, só começamos a ser recebidos pelo Delegado às 21 horas da noite e o último a sair, no caso eu, saiu apenas as 4 horas da madrugada, após 15 horas de cárcere, prisão, tortura, sofrendo privações e deboches de alguns policiais. No final, ainda tivemos que pagar fiança para não dormir na cadeia.

Não parece excessivo, após contar rapidamente pedaços do que aconteceu ontem, lembrar que tudo isso aconteceu no mesmo dia, 13 de Dezembro, em que os militares anunciaram o AI-5, símbolo e motor da violência e da ditadura militar, defendido tanto pelo Delegado da Polícia Federal como pelos policiais militares que nos travavam como merda dentro da viatura. Denunciar a mentira democrática desse país, tendo total consciência de que no momento em que as lutas populares do campo e da cidade crescerem e que o movimento popular aumentar as suas forças, novos golpes militares surgirão, com ditaduras mais explícitas, só que dessa vez promovidas também por aqueles que um dia foram torturados ao lutar por uma sociedade justa e democrática.

Pois, não temos vergonha nenhuma de dizer – ao risco de sermos considerados “caretas” e “velhacos” - que esta violência é estrutural do Estado e do capitalismo, especialmente à moda brasileira, e que a sociedade comunista, sem classes, sem Estado, com igualdade e liberdade, é o que buscamos e acreditamos como vida e justiça.

Pedro Freire –
Professor de sociologia do Estado

(para ler a notícia publicada no site do Globo, clique aqui  )

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

MST monta feira da Reforma Agrária no centro do Rio


O MST vai montar uma grande Feira da Reforma Agrária no Rio de Janeiro, em 9 e 10 de dezembro.
Com produtos vindos de assentamentos de diversas regiões do estado, a feira disponibilzará queijos, mel, hortaliças, mandioca, doces, geléias, frutas, entre outros.


A Feira da Reforma Agrária ficará no centro da cidade, na passarela entre o BNDES e a Petrobrás.


A feira contará com atrações culturais, como shows de forró da Banda Caramuela e outras atrações.


Os shows acontecem no dia 9, quinta-feira, às 19h. Na sexta, dia 10, às 15h, acontecerá um ato


político pelo Direito à Alimentação, com a participação de diversas entidades da sociedade civil.


Abaixo, veja a programação


Dia 9/12

14h: Abertura da Exposição de produtos da Reforma Agrária;

19h: Ato Cultural da Reforma Agrária


Dia 10/1214h: Ato Publico pelo Direito Humano a Alimentação e pela Reforma Agrária contra as Mudanças Climáticas

17h: Encerramento

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Samba pulsa forte no Rio

Por Moacyr Luz 
Cantor, compositor e sambista

Rio - Amanhece dia 2, e nem é fevereiro, Dia de Iemanjá. Os versos de meio de ano ainda estão na garganta, a quadra lustra o cimento na cor da escola. No pagode improvisado, as mesas fazem trincheira, interditando a porta do bar. O cavaco arranhando a palheta dá o tom:

—Hoje é 2 de dezembro, Dia Nacional do Samba!

Agô, João da Baiana! ‘Bença’, Clementina! Salve, Monarco, Sargento e Zeca Pagodinho! Um bem imaterial, o samba pulsa forte no Rio de Janeiro.

O trem lotado abre na roleta o riso escancarado do passista anônimo. Ele vem desfilando desde a gare, interrompe o trânsito na Presidente Vargas e cadencia o hino deste enredo: “Samba, agoniza, mas não morre...”.

Um bandolim emprestado dos choros cariocas sola a melodia de ‘Feito de Oração’, o ritmo aumenta a caminho de Oswaldo Cruz quando a percussão repica o início de ‘A Batucada dos Nossos Tantãs’, e a comunhão está formada.

A data é pra comemorar, já é quase feriado, o mapa da cidade ganha forma de pandeiro, onde as platinelas refletem o alto das comunidades. Na verdade, o samba se ajeita cotidiano. Domingo tem Cacique de Ramos, tem Tia Doca. Segunda é Samba do Trabalhador. Na terça, Serginho Meriti e, quarta-feira, o cozido é o prato de resistência de uma roda no Recreio dos Bandeirantes.

Todo sábado tem feijoada na agremiação, a Velha Guarda entra com chapéu de aba curta, o repertório é nobre, clássicos que emocionam grisalhos e meninas com sandálias de dedo. Salve, Candeia! Sim, hoje é o Dia Nacional do Samba, samba que doeu nas costas de Donga, da Tia Ciata. Samba hoje coroado no Itamarati.

No abre-alas de Ismael, Cartola e Paulo da Portela, um surdo de marcação conduz a história desse sentimento. O alfabeto de Ary, Arlindo e Almir Guineto, segue Bide, Bezerra e Bira Presidente, avança com Cartola, Casquinha, Dona Ivone, Diogo, Elton Medeiros, Franco, Guilherme de Brito, até se curvar por Luiz Carlos da Vila, Leci, Marçal e Zuzuca.

É a força popular de medalha no peito.

Dia da Consciência Negra.

Dia Nacional do Samba: “Cabô, meu pai. Cabô!”.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Uma guerra pela regeografização do Rio de Janeiro.

Entrevista especial com José Cláudio Alves do site do Instituto Humanitas Unisinos.
José Cláudio Souza Alves é graduado em Estudos Sociais pela Fundação Educacional de Brusque. É mestre em sociologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutor, na mesma área, pela Universidade de São Paulo. Atualmente, é professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e membro do Iser Assessoria.
Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que está por trás desses conflitos atuais no Rio de Janeiro? José Cláudio Alves – O que está por trás desses conflitos urbanos é uma reconfiguração da geopolítica do crime na cidade. Isso já vem se dando há algum tempo e culminou na situação que estamos vivendo atualmente. Há elementos presentes nesse conflito que vêm de períodos maiores da história do Rio de Janeiro, um deles é o surgimento das milícias que nada mais são do que estruturas de violência construídas a partir do aparato policial de forma mais explícita. Elas, portanto, controlarão várias favelas do RJ e serão inseridas no processo de expulsão do Comando Vermelho e pelo fortalecimento de uma outra facção chamada Terceiro Comando. Há uma terceira facção chamada Ada, que é um desdobramento do Comando Vermelho e que opera nos confrontos que vão ocorrer junto a essa primeira facção em determinadas áreas. Na verdade, o Comando Vermelho foi se transformando num segmento que está perdendo sua hegemonia sobre a organização do crime no Rio de Janeiro. Quem está avançando, ao longo do tempo, são as milícias em articulação com o Terceiro Comando. Um elemento determinante nessa reconfiguração foi o surgimento das UPPs a partir de uma política de ocupação de determinadas favelas, sobretudo da zona sul do RJ. Seus interesses estão voltados para a questão do capital do turismo, industrial, comercial, terceiro setor, ou seja, o capital que estará envolvido nas Olimpíadas. Então, a expulsão das favelas cariocas feita pelas UPPs ocorre em cima do segmento do Comando Vermelho. Por isso, o que está acontecendo agora é um rearranjo dessa estrutura. O Comando Vermelho está indo agora para um confronto que aterroriza a população para que um novo acordo se estabeleça em relação a áreas e espaços para que esse segmento se estabeleça e sobreviva.
IHU On-Line – Mas, então, o que está em jogo? José Cláudio Alves – Não está em jogo a destruição da estrutura do crime, ela está se rearranjando apenas. Nesse rearranjo quem vai se sobressair são, sobretudo, as milícias, o Terceiro Comando – que vem crescendo junto e operando com as milícias – e a política de segurança do Estado calcada nas UPPs – que não alteraram a relação com o tráfico de drogas. A mídia nos faz crer – sobretudo a Rede Globo está empenhada nisso – que há uma luta entre o bem e o mal. O bem é a segurança pública e a polícia do Rio de Janeiro e o mal são os traficantes que estão sendo combatidos. Na verdade, isso é uma falácia. Não existe essa realidade. O que existe é essa reorganização da estrutura do crime. A realidade do RJ exige hoje uma análise muito profunda e complexa e não essa espetacularização midiática, que tem um objetivo: escorraçar um segmento do crime organizado e favorecer a constelação de outra composição hegemônica do crime no RJ.
IHU On-Line – Por que esse confronto nasceu na Vila Cruzeiro? José Cláudio Alves – Porque a partir dessa reconfiguração que foi sendo feita das milícias e das UPPs (Unidades de Policiamento Pacificadoras), o Comando Vermelho começou a estabelecer uma base operacional muito forte no Complexo do Alemão. Este lugar envolve um conjunto de favelas com um conjunto de entradas e saídas. O centro desse complexo é constituído de áreas abertas que são remanescentes de matas. Essa estruturação geográfica e paisagística daquela região favoreceu muito a presença do Comando Vermelho lá. Mas se observarmos todas as operações, veremos que elas estão seguindo o eixo da Central do Brasil e Leopoldina, que são dois eixos ferroviários que conectam o centro do RJ ao subúrbio e à Baixada Fluminense. Todos os confrontos estão ocorrendo nesse eixo.
IHU On-Line – Por que nesse eixo, em específico? José Cláudio Alves – Porque, ao longo desse eixo, há várias comunidades que ainda pertencem ao Comando Vermelho. Não tão fortemente estruturadas, não de forma organizada como no Complexo do Alemão, mas são comunidades que permanecem como núcleos que são facilmente articulados. Por exemplo: a favela de Vigário Geral foi tomada pelo Terceiro Comando porque hoje as milícias controlam essa favela e a de Parada de Lucas a alugam para o Terceiro Comando. Mas ao lado, cerca de dois quilômetros de distância dessa favela, existe uma menor que é a favela de Furquim Mendes, controlada pelo Comando Vermelho. Logo, as operações que estão ocorrendo agora em Vigário Geral, Jardim América e em Duque de Caxias estão tendo um núcleo de operação a partir de Furquim Mendes. O objetivo maior é, portanto, desmobilizar e rearranjar essa configuração favorecendo novamente o Comando Vermelho. Então, o combate no Complexo do Alemão é meramente simbólico nessa disputa. Por isso, invadir o Complexo do Alemão não vai acabar com o tráfico no Rio de Janeiro. Há vários pontos onde as milícias e as diferentes facções estão instaladas. O mais drástico é que quem vai morrer nesse confronto é a população civil e inocente, que não tem acesso à comunicação, saúde, luz… Há todo um drama social que essa população vai ser submetida de forma injusta, arbitrária, ignorante, estúpida, meramente voltada aos interesses midiáticos, de venda de imagens e para os interesses de um projeto de política de segurança pública que ressalta a execução sumária. No Rio de Janeiro a execução sumária foi elevada à categoria de política pública pelo atual governo.
IHU On-Line – Em que contexto geográfico está localizado a Vila Cruzeiro? José Cláudio Alves – A Vila Cruzeiro está localizada no que nós chamamos de zona da Leopoldina. Ela está ao pé do Complexo do Alemão, só que na face que esse complexo tem voltada para a Penha. A Penha é um bairro da Leopoldina. Essa região da Leopoldina se constituiu no eixo da estrada de ferro Leopoldina, que começa na Central do Brasil, passa por São Cristóvão e dali vai seguir por Bom Sucesso, Penha, Olaria, Vigário Geral – que é onde eu moro e que é a última parada da Leopoldina e aí se entra na Baixada Fluminense com a estação de Duque de Caxias. Esse “corredor” foi um dos maiores eixos de favelização da cidade do Rio de Janeiro. A favelização que, inicialmente, ocorre na zona sul não encontra a possibilidade de adensamento maior. Ela fica restrita a algumas favelas. Tirando a da Rocinha, que é a maior do Rio de Janeiro, os outros complexos todos – como o da Maré e do Alemão – estão localizados no eixo da zona da Leopoldina até Avenida Brasil. A Leopoldina é de 1887-1888, já a Avenida Brasil é de 1946. É nesse prazo de tempo que esse eixo se tornou o mais favelizado do RJ. Logo, a Vila Cruzeiro é apenas uma das faces do Complexo do Alemão e é a de maior facilidade para a entrada da polícia, onde se pode fazer operações de grande porte como foi feita na quinta-feira, dia 25-11. No entanto, isso não expressa o Complexo do Alemão em si. A Maré fica do outro lado da Avenida Brasil. Ela tem quase 200 mil habitantes. Uma parte dela pertence ao Comando Vermelho, a outra parte é do Terceiro Comando. Por que não se faz nenhuma operação num complexo tão grande ou maior do que o do Alemão? Ninguém cita isso! Por que não se entra nas favelas onde o Terceiro Comando está operando? Porque o Terceiro Comando já tem acordo com as milícias e com a política de segurança. Por isso, as atuações se dão em cima de uma das faces mais frágeis do Complexo do Alemão, como se isso fosse alguma coisa significativa.
IHU On-Line – Estando a Vila Cruzeiro numa das faces do Complexo, por que o Alemão se tornou o reduto de fuga dos traficantes? José Cláudio Alves – A estrutura dele é muito mais complexa para que se faça qualquer tipo de operação lá. Há facilidade de fuga, porque há várias faces de saída. Não é uma favela que a polícia consegue cercar. Mesmo juntando a polícia do RJ inteiro e o Exército Nacional jamais se conseguiria cercar o complexo. O Alemão é muito maior do que se possa imaginar. Então, é uma área que permite a reorganização e reestruturação do Comando Vermelho. Mas existem várias outras bases do Comando Vermelho pulverizadas em toda a área da Leopoldina e Central do Brasil que estão também operando. Mesmo que se consiga ocupar todo o Complexo do Alemão, o Comando Vermelho ainda tem possibilidades de reestruturação em outras pequenas áreas. Ninguém fala, por exemplo, da Baixada Fluminense, mas Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Mesquita, Belford Roxo são áreas que hoje estão sendo reconfiguradas em termos de tráfico de drogas a partir da ida do Comando Vermelho para lá. Por exemplo, um bairro de Duque de Caxias chamado Olavo Bilac é próximo de uma comunidade chamada Mangueirinha, que é um morro. Essa comunidade já é controlada pelo Comando Vermelho que está adensando a elevação da Mangueirinha e Olavo Bilac já está sentindo os efeitos diretos dessa reocupação. Mas ninguém está falando nada sobre isso. A realidade do Rio de Janeiro é muito mais complexa do que se possa imaginar. O Comando Vermelho, assim como outras facções e milícias, estabelece relação direta com o aparato de segurança pública do Rio de Janeiro. Em todas essas áreas há tráfico de armas feito pela polícia, em todas essas áreas o tráfico de drogas permanece em função de acordos com o aparato policial.
IHU On-Line – Podemos comparar esses traficantes que estão coordenando os conflitos no RJ com o PCC, de São Paulo? José Cláudio Alves – Só podemos analisar a história do Rio de Janeiro, fazendo um retrospecto da história e da geografia. O PCC, em São Paulo, tem uma trajetória muito diferente das facções do Rio de Janeiro, tanto que a estrutura do PCC se dá dentro dos presídios. Quando a mídia noticia que os traficantes no Rio de Janeiro presos estão operando os conflitos, leia-se, por trás disso, que a estrutura penitenciária do Estado se transformou na estrutura organizacional do crime. Não estou dizendo que o Estado foi corrompido. Estou dizendo que o próprio estado em si é o crime. O mercado e o Estado são os grandes problemas da sociedade brasileira. O mercado de drogas, articulado com o mercado de segurança pública, com o mercado de tráfico de drogas, de roubo, com o próprio sistema financeiro brasileiro, é quem tem interesse em perpetuar tudo isso. A articulação entre economia formal, economia criminosa e aparato estatal se dá em São Paulo de uma forma diferente em relação ao Rio de Janeiro. Expulsar o Comando Vermelho dessas áreas interessa à manutenção econômica do capital. O que há de semelhança são as operações de terror, operações de confronto aberto dentro da cidade para reestruturar o crime e reorganizá-lo em patamares mais favoráveis ao segmento que está ganhando ou perdendo.
IHU On-Line – Como o senhor avalia essa política de instalação das UPPs – Unidades de Policiamento Pacificadoras nas favelas do Rio de Janeiro? José Cláudio Alves – É uma política midiática de visibilidade de segurança no Rio de Janeiro e Brasil. A presidente eleita quase transformou as UPPs na política de segurança pública do país e quer reproduzir as UPPs em todo o Brasil. A UPP é uma grande farsa. Nas favelas ocupadas pelas UPSs podem ser encontrados ex-traficantes que continuam operando, mas com menos intensidade. A desigualdade social permanece, assim como o não acesso à saúde, educação, propriedade da terra, transporte. A polícia está lá para garantir o não tiroteio, mas isso não garante a não existência de crimes. A meu ver, até agora, as UPPs são apenas formas de fachada de uma política de segurança e econômica de grupos de capitais dominantes na cidade para estabelecer um novo projeto e reconfiguração dessa estrutura.
IHU On-Line – A tensão no Rio de Janeiro, neste momento, é diferente de outros momentos de conflito entre polícia e traficantes? José Cláudio Alves – Sim, porque a dimensão é mais ampla, mais aberta. Dizer que eles estão operando de forma desarticulada, desesperada, desorganizada é uma mentira. A estrutura que o Comando Vermelho organiza vem sendo elaborada há mais de cinco anos e ela tem sido, agora, colocada em prática de uma forma muito mais intensa do que jamais foi visto. A grande questão é saber o que se opera no fundo imaginário e simbólico que está sendo construído de quem são, de fato, os inimigos da sociedade fluminense e brasileira. Essa questão vai ter efeitos muito mais venenosos para a sociedade empobrecida e favelizada. É isso que está em jogo agora