domingo, 29 de maio de 2011
O sonho continua vivo...
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Como se sobrevive à guerra?
Quando conheci Madjana, em janeiro do ano passado, não conseguia parar de pensar que aquela mulher tinha, de alguma maneira, vivenciado aquela guerra. Como teria sido? E, acima de tudo, como ela tinha virado a página e seguido com sua vida? Madjana era uma mulher incrível. Bonita, inteligente, forte e muito animada. Que horrores teria ela visto? Que medos teria sentido? Durante a semana em que estivemos juntas, não tive coragem de perguntar. Tive medo de desencavar sentimentos enterrados. Acho que tive também medo do que ela poderia responder.
Este mês, encontrei duas outras pessoas de Serra Leoa durante minha estadia na Tanzânia. Thomas e Christian. Christian é cientísta político e tem trinta e poucos anos. Um dia, durante o jantar, Christian começou a falar sobre seu país. Perguntei se ele estava lá durante a guerra civil (que durou de 1991 até 2000). Sinceramente, não estava interessada em saber a política da guerra. O que eu queria mesmo saber era como as pessoas comuns viviam durante a guerra. Como iam dormir toda noite, como almoçavam e jantavam, como iam ao trabalho... como se vive durante uma guerra tão violenta?
Christian me contou que estava sim em Serra Leoa durante todo o período da guerra. Morava em Freetown, a capital. Disse que, enquanto os conflitos estavam no interior, a vida na capital seguia de maneira relativamente normal. O problema foi quando o conflito chegou a Freetown.
Durante a tomada da capital, Christian estava em um prédio que veio abaixo e foi capturado pelos rebeldes. A primeira pergunta que fizeram ao capturá-lo: "você é combatente?!". Ele só teria alguma chance de sair ileso se não fosse, evidentemente, um combatente.
"E como eles decidiram se você era ou não um combatente?", perguntei. "Eu repetia desesperadamente que não era. Mas na verdade eles tem meios de verificar se você é ou não. O peso das armas deixa marcas específicas nos ombros. E o dedo cria um tipo de calo por causa do gatilho. Então, eles simplesmente tiraram minha blusa para ver meus ombros e analisaram meus dedos. Viram que eu não era um combatente. Me deixaram viver. Mas me capturaram e me levaram com eles".
Christian foi capturado e levado para o interior. Ficou sob posse dos rebeldes durante três semanas, obrigado a acompanhá-los de vila em vila, em acampamentos improvisados, ou no meio do mato. Ele me contou que quando os rebeldes tomavam uma vila, não dormiam nas casas porque não era seguro. Seria o primeiro lugar onde o exército atacaria. Eles dormiam então escondidos no meio do mato, ao redor da vila. Mas, para não dormir no chão duro, obrigavam os reféns a carregarem os corpos e juntá-los no chão formando um colchão de corpos humanos. Os rebeldes dormiam no meio do mato em um colchão de corpos.
Perguntei a Christian como foram essas três semanas, o que havia acontecido, como ele passou esse período. Ele não quis me responder. Só me disse "Renata, o que eu vivi, o que eu vi nessas três semanas... você não pode nem imaginar. É indizível". Respeitei seu desejo de silêncio. Certas memórias sepultadas não devem ser exumadas.
Christian foi libertado depois que o exército venceu os rebeldes em uma batalha local. Mas, antes de ser libertado, teve que provar mais uma vez que não era um combatente, mas um prisioneiro. Desta vez, foi um comandante do exército quem procurou marcas nos ombros e calos nos dedos.
Fiquei um bom tempo pensando que esse Christian, o cientista político que passou duas semanas ali discutindo orçamento público e instituições financeiras internacionais; o homem educado e um tanto formal de fala doce e calma; o dançarino mais animado da festa de encerramento; esse Christian era o mesmo que ficou três semanas vendo e vivendo o "indízivel", carregando corpos que serviriam de cama para os rebeldes.
Como funciona isso? Como é que alguém que viveu os horrores da guerra, que viu o "indizível", vive depois uma vida comum? Como tolerar um cotidiano banal com a bagagem de um passado "indizível"?
Acho que nunca vou entender realmente como é que Madjana, Thomas, Christian e outras milhares de pessoas encontram força e sanidade para viver a vida comum depois do "indizível" da guerra. Só sei que isso coloca um pouco as coisas em perspectiva pra mim. Afinal, não dá mais para reclamar de pegar ônibus cheio, de não ter tipo tempo de pintar o cabelo, da internet que não funciona, do celular que não pega... O que é tudo isso diante da vivência indizível da guerra?
terça-feira, 17 de maio de 2011
Ujamaa, o Socialismo Africano
quarta-feira, 13 de abril de 2011
A matança na escola, por Chico Alencar
sábado, 9 de abril de 2011
SERVIR E PROTEGER

sábado, 2 de abril de 2011
"Dizem que ela existe pra proteger..."
Cada vez mais tenho dúvidas dessa designação...
Dando continuidade à postagem da Taty, sobre temas absurdos que se sucedem continuamente e nos dá uma sensação de "déjà vu" coletivo, vou relatar uma série de fatos acontecido na noite de ontem, que nos mostram mais uma vez a arbitrariedade da nossa polícia (que não é novidade) e a hipocrisia da nossa sociedade.
Na noite do dia primeiro de abril (ontem), embaixo dos Arcos da Lapa, um dos símbolos da boemia carioca, uma série de ataques absurdos da Polícia Militar do Rio de Janeiro se sucederam, de maneira completamente leviana, configurando um cenário de tensão e indignação, que parecia uma pegadinha de mau gosto do dia da mentira, mas que infelizmente era tudo verdade.
Dois policiais militares da 5a. Delegacia de Polícia atacaram de maneira leviana menores de rua e um grupo de pessoas que continham estudantes, professores, editores e outros profissionais, que se reuniam para tocar.
O ataque foi realizado com sprays de pimenta, o novo brinquedinho da PM do RJ, dado pelos nossos governantes, para manter a ordem e a segurança do povo do nosso estado.
O cenário era de descontração e integração, um grupo de pessoas, amantes do Maracatu, se reunia nos arcos da Lapa para cantar e tocar. O clima de alegria contagiava as pessoas que passavam pelo local. Em pouco tempo, turistas, frequentadores da Lapa das mais diferentes classes sociais e moradores de rua, agregaram-se à batucada.
A alegria foi tomada pela tristeza, quando ao final da brincadeira, uma viatura da polícia passa apressadamente no meio das pessoas atrás de alguns meninos de rua, que supostamente tinham roubado uma correntinha de ouro, de uma menina.
A viatura pára num determinado momento, chama um dos meninos até a janela do carro. O menino ao se aproximar e puxado pela camisa pelo policial que conduzia o veículo e em seguida recebe um jato de spray de pimenta no rosto e é empurrado para longe do carro, que arranca pela praça na “caça aos bandidos”.
Logo depois dirijo-me ao menino para prestar socorro. Era uma criança negra de aproximadamente uns oito anos de idade, que chorava por causa das agressões sofridas.
Se o caso parasse por ai, já tínhamos elementos suficientes para nos indignarmos e termos mais uma vez aquela péssima sensação de um déjà vu coletivo. É aquele velha equação dos estereótipos, onde negro + pobre=suspeito.
Entretanto, como sempre falo, as coisas sempre podem ser piores no nosso Brasil varonil! Os policiais voltam e pegam duas crianças suspeitas, dentre elas, o mesmo menino que havia auxiliado anteriormente. Colocam as duas crianças sentadas no chão, ao lado da viatura e junto com as “vítimas” do roubo começam uma sessão de averiguações.
Eu me aproximo da viatura e vejo um dos policiais pegar a lata de spray de pimenta para ameaçar as crianças. Falo para uma das “vítimas” do roubo: “Vocês acham que esse tipo de atitude é realmente necessária por um cordão?”
A menina respondeu: “O policial não fará nada, ele só está ameaçando.” Eu respondi: “Eles não vão só ameaçar, até mesmo porque eles já jogaram o spray no menino que está no chão, porque eu mesma o ajudei.”
Ao ouvir isso, um dos policiais dirige-se a mim e com a toda a sua autoridade que lhe é de direito, reponde: “Eu estou aqui para defender a ordem e queria ver se você tivesse sido a vítima se o seu discurso seria o mesmo.”
E para dar continuidade ao seu serviço sujo de manter a cidade limpa, o policial também atacou-me com um jato se spray de pimenta no rosto e ao me afastar pela ardência que senti nos olhos, o policial seguiu-me jogando mais pimenta nas minhas costas.
A reação dos policias provocou uma indignação generalizada nas pessoas que estavam no local, que interceptaram o policial para que ele pudesse parar de me atacar.
Agora eu pergunto: Que ordem é essa que a nossa polícia quer estabelecer? Que diabo de “Estado Democrático de Direito” é esse que vivemos? Alguém pode explicar que democracia é essa onde uma cidadã que paga seus impostos, que é uma professora, que não tem nenhum registro criminal é atacada sem a menor justificativa, por aqueles que teoricamente deveriam preservar a minha segurança.
Não havia justificativa para esse ataque. Eu não “desacatei uma autoridade”, eu não agredi ninguém, eu não alterei a minha voz, eu simplesmente cometi o grave erro de defender os direitos de uma criança negra, pobre, moradora de rua, que teoricamente tem esses direitos preservados por lei, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, onde no Artigo 5° diz: “Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.”
Não era eu que estava atuando fora da lei para ser agredida de maneira tão negligente. Mas eu cometi o sério erro de defender o lado errado.
A sequência de absurdos não pára por ai, várias outras pessoas que se indignaram com essa situação e que estavam defendendo o que era certo, mas do lado errado, como eu, foram agredidas com spray de pimenta e uma dessas pessoas terminou a noite presa por “desacato a autoridade”. Ótima desculpa para se impor ainda mais o direito de autoridade e reprimir ainda mais àqueles que não se calam contra o abuso do poder.
Terminamos a noite com mais um nítido retrato que a nossa polícia defende a ordem e o bem estar social de uma parcela muito seleta da sociedade. Que a polícia que dizem que existe para cooperar e proteger, abusa do poder que lhe é outorgado para reprimir de maneira violenta todos àqueles que não concordam com a “ordem” que estão estabelecendo.
Voltamos para as nossas casas indignados e com uma angustiante e triste sensação de impotência perante esse sistema vil que não respeita as leis, que não defende o cidadão sem discriminação e que não funciona para todos.

