Três meninas. Três histórias diferentes que se encontram. Três linhas distintas de pensamento, que se unem formando um maravilhoso mosaico de histórias, ideias e experiências. Encontram-se nas afinidades e completam-se nas diferenças, enlaçando-se nas alegrias e tropeços da vida. Escrevem aqui para celebrar, compartilhar e aprender. Para refletir sobre as experiências do passado, as inquietudes do presente e as incertezas do futuro. Nessa sucessão de encontros e desencontros, buscam entender melhor o mundo. Tudo isso regado por um pouco de geografia, política, arte e muito ziriguidum!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A matança na escola, por Chico Alencar

“Um grito ouviu-se em Ramá, de pranto sentido e lamentação: é Raquel que chora seus filhos, e não quer ser consolada, porque eles não existem mais” (Mt, 2, 18)
A dor indizível e inconsolável das famílias que perderam suas crianças, até há pouco alegres alunos da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio, exige de nós consternada solidariedade. Ter filhos, netos, irmãos, primos ceifados no alvorecer da vida é a pior tragédia que pode acontecer, e só o conforto humano e alguma fé dará forças para seguir sobrevivendo. Perdê-los no espaço sagrado de uma sala de aula, no início da manhã ensolarada, é mais absurdo ainda.
Mas o acontecimento terrível também impõe profunda reflexão. Uma tragédia como esta não se insere no painel tristemente costumeiro da criminalidade, mas no da violência social insana. É difícil reconhecer que os gatilhos exterminadores também foram, de maneira indireta e invisível, apertados por todos os que temos responsabilidade pública. Mas a matança perpetrada por um indivíduo mentalmente degradado tem propulsores sociais que nos dizem respeito.
O assassino estava com duas pistolas e fartamente municiado porque é frouxo o controle da circulação de armas e munições em nosso país. O armamentismo ilegal é objeto de crescente tráfico, e favorecido também pela cultura importada do ‘cada indivíduo uma arma’;
O criminoso imbuiu-se de uma ‘missão de terror’ porque os meios de comunicação de massa e de ‘entretenimento’ disseminam serial killers, vídeo-games, filmes e seriados propagadores da violência, da eliminação dos adversários como valor maior, do espetáculo da destruição;
O demente, no seu isolamento, em sociedade sem política pública preventiva de saúde mental, cristalizou comportamento mórbido talvez também estimulado por fundamentalismos e fanatismos contemporaneamente exacerbados;
O matador encontrou facilidades no seu trajeto de morte porque nossas precarizadas escolas públicas já não têm quantitativo de servidores, dentro delas e no seu entorno, que possa contribuir para maior segurança do cotidiano pedagógico.
O homicida, já condenado definitivamente, foi produzido, de alguma maneira, também por nossa omissão, por nossa indiferença, por nossa demissão cidadã. Talvez por nossa adesão ao mundo torpe da competição desvairada, da eliminação do outro, do desprezo pela dignidade da vida humana. Ambiente civilizatório perverso que muito(a)s educadore(a)s – tantas vezes vítimas dele - lutam por transformar, para que nossas crianças tenham possibilidade de futuro.
*Chico Alencar é professor, tendo lecionado por 20 anos na rede municipal do Rio de Janeiro, e exerce mandato de deputado federal (PSOL/RJ). Texto publicado em sua página.

sábado, 9 de abril de 2011

SERVIR E PROTEGER

Servir e proteger a quem?
O lema da polícia militar é muito questionável... Muito mesmo...
A polícia diz me proteger da violência, mas a pergunta que não me canso de fazer desde da semana passada é: quem me protege da polícia?
A seguir algumas imagens da "PROTEÇÃO" oferecida por essa polícia suja que não SERVE pra nada!
video
Essas imagens ocorreram logo após o ataque da polícia com os sprays de pimenta. Após essas discussões, o policial que agrediu com um cacete um dos rapazes do grupo, retorna, agride um outro rapaz e o leva preso por desacato a autoridade.
O segundo vídeo não poderá ser exibido porque foi destruído pela polícia.

sábado, 2 de abril de 2011

"Dizem que ela existe pra proteger..."

Cada vez mais tenho dúvidas dessa designação...

Dando continuidade à postagem da Taty, sobre temas absurdos que se sucedem continuamente e nos dá uma sensação de "déjà vu" coletivo, vou relatar uma série de fatos acontecido na noite de ontem, que nos mostram mais uma vez a arbitrariedade da nossa polícia (que não é novidade) e a hipocrisia da nossa sociedade.

Na noite do dia primeiro de abril (ontem), embaixo dos Arcos da Lapa, um dos símbolos da boemia carioca, uma série de ataques absurdos da Polícia Militar do Rio de Janeiro se sucederam, de maneira completamente leviana, configurando um cenário de tensão e indignação, que parecia uma pegadinha de mau gosto do dia da mentira, mas que infelizmente era tudo verdade.

Dois policiais militares da 5a. Delegacia de Polícia atacaram de maneira leviana menores de rua e um grupo de pessoas que continham estudantes, professores, editores e outros profissionais, que se reuniam para tocar.

O ataque foi realizado com sprays de pimenta, o novo brinquedinho da PM do RJ, dado pelos nossos governantes, para manter a ordem e a segurança do povo do nosso estado.

O cenário era de descontração e integração, um grupo de pessoas, amantes do Maracatu, se reunia nos arcos da Lapa para cantar e tocar. O clima de alegria contagiava as pessoas que passavam pelo local. Em pouco tempo, turistas, frequentadores da Lapa das mais diferentes classes sociais e moradores de rua, agregaram-se à batucada.

A alegria foi tomada pela tristeza, quando ao final da brincadeira, uma viatura da polícia passa apressadamente no meio das pessoas atrás de alguns meninos de rua, que supostamente tinham roubado uma correntinha de ouro, de uma menina.

A viatura pára num determinado momento, chama um dos meninos até a janela do carro. O menino ao se aproximar e puxado pela camisa pelo policial que conduzia o veículo e em seguida recebe um jato de spray de pimenta no rosto e é empurrado para longe do carro, que arranca pela praça na “caça aos bandidos”.

Logo depois dirijo-me ao menino para prestar socorro. Era uma criança negra de aproximadamente uns oito anos de idade, que chorava por causa das agressões sofridas.

Se o caso parasse por ai, já tínhamos elementos suficientes para nos indignarmos e termos mais uma vez aquela péssima sensação de um déjà vu coletivo. É aquele velha equação dos estereótipos, onde negro + pobre=suspeito.

Entretanto, como sempre falo, as coisas sempre podem ser piores no nosso Brasil varonil! Os policiais voltam e pegam duas crianças suspeitas, dentre elas, o mesmo menino que havia auxiliado anteriormente. Colocam as duas crianças sentadas no chão, ao lado da viatura e junto com as “vítimas” do roubo começam uma sessão de averiguações.

Eu me aproximo da viatura e vejo um dos policiais pegar a lata de spray de pimenta para ameaçar as crianças. Falo para uma das “vítimas” do roubo: “Vocês acham que esse tipo de atitude é realmente necessária por um cordão?”

A menina respondeu: “O policial não fará nada, ele só está ameaçando.” Eu respondi: “Eles não vão só ameaçar, até mesmo porque eles já jogaram o spray no menino que está no chão, porque eu mesma o ajudei.”

Ao ouvir isso, um dos policiais dirige-se a mim e com a toda a sua autoridade que lhe é de direito, reponde: “Eu estou aqui para defender a ordem e queria ver se você tivesse sido a vítima se o seu discurso seria o mesmo.”

E para dar continuidade ao seu serviço sujo de manter a cidade limpa, o policial também atacou-me com um jato se spray de pimenta no rosto e ao me afastar pela ardência que senti nos olhos, o policial seguiu-me jogando mais pimenta nas minhas costas.

A reação dos policias provocou uma indignação generalizada nas pessoas que estavam no local, que interceptaram o policial para que ele pudesse parar de me atacar.

Agora eu pergunto: Que ordem é essa que a nossa polícia quer estabelecer? Que diabo de “Estado Democrático de Direito” é esse que vivemos? Alguém pode explicar que democracia é essa onde uma cidadã que paga seus impostos, que é uma professora, que não tem nenhum registro criminal é atacada sem a menor justificativa, por aqueles que teoricamente deveriam preservar a minha segurança.

Não havia justificativa para esse ataque. Eu não “desacatei uma autoridade”, eu não agredi ninguém, eu não alterei a minha voz, eu simplesmente cometi o grave erro de defender os direitos de uma criança negra, pobre, moradora de rua, que teoricamente tem esses direitos preservados por lei, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, onde no Artigo 5° diz: Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.

Não era eu que estava atuando fora da lei para ser agredida de maneira tão negligente. Mas eu cometi o sério erro de defender o lado errado.

A sequência de absurdos não pára por ai, várias outras pessoas que se indignaram com essa situação e que estavam defendendo o que era certo, mas do lado errado, como eu, foram agredidas com spray de pimenta e uma dessas pessoas terminou a noite presa por “desacato a autoridade”. Ótima desculpa para se impor ainda mais o direito de autoridade e reprimir ainda mais àqueles que não se calam contra o abuso do poder.

Terminamos a noite com mais um nítido retrato que a nossa polícia defende a ordem e o bem estar social de uma parcela muito seleta da sociedade. Que a polícia que dizem que existe para cooperar e proteger, abusa do poder que lhe é outorgado para reprimir de maneira violenta todos àqueles que não concordam com a “ordem” que estão estabelecendo.

Voltamos para as nossas casas indignados e com uma angustiante e triste sensação de impotência perante esse sistema vil que não respeita as leis, que não defende o cidadão sem discriminação e que não funciona para todos.

Dormimos com a certeza que pesadelos como esses e outros piores, ocorrem todos os dias em nossa cidade e que a nossa capacidade de reverter esse quadro é muito reduzida e o sonho de uma sociedade menos hipócrita e mais atuante é algo ainda muito distante...